TRAUMAS DE UMA MUDANÇA

Resolvida comigo mesma, decido: vou me mudar!

De cidade!

Começo por pedir caixas que vou juntando pelo corredor e enchendo com livros (são tantos!); com papéis, contas pagas do ano de 2009 que vou rasgando e colocando em inúmeras sacolas de plástico para por fora.

cAIXAS

Prá que guardar tanta coisa? Me pergunto.

E são roupas que não uso há tanto tempo, brinquedos que meus netos nem se interessam mais e caixinhas de qualquer coisa, cartões, latinhas e um sem número de coisas inúteis que estavam a encher gavetas.

Passei dias selecionando o que levar, isso sem falar nas fotos antigas que estavam num armário e que levei horas revendo, chorando e guardando tudo de novo para levar tudo outra vez…

Aí preciso arrumar um caminhão de mudança.

Isso até que não foi difícil (os preços não variam muito), mas o que me pediram?

Ir até a URBS pedir autorização para o caminhão estacionar na rua em frente ao meu prédio.

Caminhão

E lá fui eu.

Depois de dar um monte de informações ainda precisei pagar uma DARF na lotérica e…voltar lá de novo para aí sim pegar a bendita autorização, mas não parou por aí: tem que comprar cartões do ESTAR para colocar no dito caminhão enquanto estiver ali parado.

Aí você vai à Net pedir cancelamento, à Copel pedir desligamento, ao Síndico pagar a autorização da mudança!

Tudo bem, você chega na nova cidade, nova casa e começa tudo de novo!

Desempacota tudo, prega quadros na parede, arruma gavetas, coloca varal, compra bujão de gás (para quem sempre morou em prédio com central de gás, isso é novidade), instalar chuveiros, comprar lâmpadas, tanque de lavar roupa, mangueira para lavar calçadas, cortinas, etc, etc, etc.

antena

E aí começa outra maratona: instalar TV a cabo, mudar o celular, colocar telefone fixo, arrumar jardineiro, diarista, salão…

Gente, o que significa tudo isso?

47 dias hoje que estou morando aqui e nesse dia é que vieram instalar minha internet!

Eu estava ficando maluca sem ela!

Mas agora, sentadinha em frente ao meu amado computador, posso então voltar a escrever tudo isso para vocês!

Até que enfim!!!

computador

Imagens: 1)tempodeconstruir2014.blogspot.com; 2)esposamulhervirtuosa.blogspot.com; 3)br.freepik.com; 4)utentes.colorir.com

“NÃO ESTEJAIS INQUIETOS POR COISA ALGUMA; ANTES, AS VOSSAS PETIÇÕES SEJAM EM TUDO CONHECIDAS DIANTE DE DEUS, PELA ORAÇÃO E SÚPLICAS, COM AÇÃO DE GRAÇAS.” Filipenses, 4-6

VOCAÇÃO

Talento, aptidão.

Muitas vezes é difícil reconhecermos, quando jovens, para quê temos talento.

Tem pessoas que parecem nascer sabendo aquilo que desejam ser no futuro.

_Vou ser arquiteta! Disse minha filha mais velha com apena cinco anos de idade, enquanto desenhava em seu caderno.

desenhista

E é!

Feliz da vida!

Outros vão descobrindo aos poucos, gastando tempo e dinheiro ao abandonar cursos ou mudando para outros completamente diferentes.

Tem aqueles que fazem testes vocacionais de tão indecisos que estão e, tem aqueles que acham não ter vocação para nada.

Do alto da minha experiência, penso que todos nós podemos descobrir, inventar e desenvolver nossas aptidões.

vocação

Um belo dia me formei professora e enquanto dava aulas, vi que poderia pintar estatuetas em gesso (muito em moda naquela época), aprender piano, violão, representar e cantar.

Fui vendedora de jóias e gerente de lojas.

Aprendi em cada uma gostar do que aprendia e fazia.

Assim eu falava de produtos dietéticos e insulinas com a mesma autoridade com que falava sobre artesanato brasileiro.

Fui recepcionista, locutora e coordenadora de cursos.

Dei palestra sobre Ética Profissional e fui modelo sênior por um período de tempo.

Sempre me saí bem.

E o que dizer do meu talento para mãe? Isso somente meus filhos podem atestar, mas pelos resultados…

Ultimamente passo meus dias na cozinha fazendo congelados.

Agora, o que sempre esteve presente, entre idas e vindas, foi minha vocação para escrever!

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As poesias apareciam, muitas vezes, prontas em minha mente.

Depois me encantei com os Haicais e escrevia sem parar.

Quando comecei a escrever crônicas, foi tanta descoberta, a de não me sentir presa a rimas, sonoridade, cadência e contagem de sílabas, estava livre para escrever o que sentia e os sentimentos eram colocados amontoados em folhas de papel.

Quando pensava que não existia mais o que inventar, vieram os netos e com eles, as histórias infantis!

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Meu Deus!

Pegava meu caderno, caneta na mão e elas vinham tomando forma e cores, vida, nos meus movimentos de escrever.

E, de repente, lá estavam elas, bem ali, de frente aos meus olhos, prontas!

Aí fazer um curso de contação de histórias, foi um pulo: é uma alegria imensa compartilhar com meus netos a magia do faz de conta.

Jardim Encantado22

E ainda tenho esse blog que é a mistura do que mais gosto: cultura e culinária!

Resumindo, dentro de todas as coisas, tudo que fiz e fui, a literatura sempre esteve permeando, infiltrando, sabendo que um dia seria ela, por inteiro, quem faria parte de toda a minha existência.

Vocação!

É isso!

Imagens: plurim.wordpress.com; milc.net.br

“NÃO SABEIS VÓS QUE OS QUE CORREM NO ESTÁDIO, TODOS, NA VERDADE, CORREM, MAS UM SÓ LEVA O PRÊMIO? CORREI DE TAL MANEIRA QUE O ALCANCEIS.” I Coríntios 9- 24

INSÔNIA

Quem nunca teve?

Eu!

Até o fatídico domingo, 12 de julho passado.

Recostada na cama do hotel onde estava hospedada, banho tomado, pijama quentinho, ainda sem sono, resolvi assistir o último programa Super Star, que ainda não tinha assistido nem uma vez.

Aí começo, é claro, a me empolgar e torcer entre as quatro classificadas, para a que achava melhor e que… ficou em segundo lugar.

scalene_pauloricardo_finalsuperstar

Já a campeã, me deixou “fula” de raiva e desliguei a TV com a mesma sensação que tive com o resultado das eleições: perplexidade!

Mas o assunto hoje é outro e fico pensando que a causa começou aí porque fiquei muito agitada.

Então me acomodo, afofo os travesseiros, fecho os olhos e espero o sono chegar.

Dali a pouco, viro para um lado, depois para o outro… nada, nem um bocejo sequer dando sinal que o sono chegava.

Barriga para cima e começo a passar os acontecimentos do dia: almoço, família, mais festa quando começo a ouvir o som da chuva batendo na vidraça.

– Oba! Isso é um começo gostoso para o soninho chegar!

Mas não naquela noite.

Aí lembro dos carneirinhos e resolvo contá-los, pulando uma cerca branquinha…

carneiros

Lá pelos trezentos e tanto desisto e então começo a declamar mentalmente poesias e versículos que sei de cor.

Nada!

– Ah, tem aquele exercício de respiração que ouvi em algum lugar e dizem dar certo!

Começo então a respirar pelo nariz, segurar até contar três e expelir  pela boca lentamente até sair todo o ar.

Aí tudo de novo e em umas cinco vezes, a pessoa já deve estar pegando no sono.

Não eu!

Olho no relógio: 04:49.

Começo a me preocupar de verdade!

E aí não sei quanto tempo mais levei naquele vira prá cá e vira prá lá; só sei que eram 07:30 quando ouvi as camareiras empurrando os carrinhos, abrir portas e cochichar alto.

Era o fim da noite!

rádio relógio

Imagens: 1) gshow.globo.com; 2) arteemparttime.blogspot.com; 3) dojapao.com.br

“INÚTIL VOS SERÁ LEVANTAR DE MADRUGADA, REPOUSAR TARDE, COMER O PÃO DE DORES, POIS ASSIM DÁ ELE AOS SEUS AMADOS O SONO”. Salmos 127- 2

 

 

O DIA EM QUE QUASE MORRI

Férias, que maravilha!

E no verão, melhor ainda!

Como recém separada, peguei meus três filhos, coloquei no carro com toda a bagagem a que tínhamos direito e lá fomos nós, rumo à praia.

Viajamos felizes, cantando e em cada curva que nos aproximava mais do nosso destino, brincávamos de “quem vê o mar primeiro”.

mar

Já sentia aquele cheiro de maresia, já saboreava o que estava para acontecer: muito peixe e camarão no cardápio.

Chegamos à casa que eu alugara por telefone: era bem boa, apesar de um pouco antiga, mas ficava no centro da cidade e bem perto do mar.

E assim começamos nossa tão sonhada temporada.

Os dias se sucediam em passeios, sorvetes, parquinho à noite, amigos e muita alegria.

Até que uma tarde choveu.

Chuva-forte_22

Forte, com direito a relâmpagos rasgando o céu e trovões assustadores.

Só a minha filha mais velha estava comigo em casa porque os outros tinham ido mais cedo à casa dos amigos.

Como o calor era muito forte, fui até a cozinha, descalça, e abri a geladeira para pegar água.

Fiquei grudada nela!

A geladeira em questão era daquelas bem antigas com puxador em aço.

Não conseguia me soltar, nem gritar, meu corpo todo tremia e eu senti que estava desfalecendo.

Foi uma questão de segundos e então fui jogada para longe.

Quando comecei a enxergar melhor, percebi minha filha abaixada ao meu lado.

Ela, com uma rapidez de raciocínio (só por Deus mesmo), tinha puxado o fio da tomada!

Mais tarde, quando fui ao médico e contei o sucedido, ele disse que eu já estava morrendo pelo fato do meu corpo nem ter controlado mais a bexiga.

Naquela noite enquanto dormia, senti alguma coisa bem perto do meu rosto e que me fez acordar: era a mãozinha do meu filho caçula, bem perto do meu nariz, para sentir se eu estava respirando…

Pobrezinhos, como ficaram assustados!

mãe e filhos

É por essa razão que em um poema que escrevi “Minha Filha, Minha Amiga”, do meu livro “Um Pouco de Mim”, digo: “se um dia te dei à luz, você também já me deu”.

Realmente, nasci de novo.

E da minha filha!

Imagens: 1) fundamar.org.br; 2) tempoagora.com.br; 3) colorirgratis.com

Do meu livro “Confidências ao Meio Dia”

“ASSIM QUE, SE ALGUÉM ESTÁ EM CRISTO, NOVA CRIATURA É: AS COISAS VELHAS JÁ PASSARAM, EIS QUE TUDO SE FEZ NOVO”. 2 Coríntios 5-17

LIVROS DE COLORIR: AH, ESSES MODISMOS!

Engraçado como são essas modas… numa época de internet, de correrias, falta de tempo, rapidez em tudo que fazemos, de repente surge o que?

Livros de colorir para gente grande!

livro de colorir 001

Enormes, cheio de coisinhas pequenas, impossíveis, castelos em cima de cogumelos, flores, bichos, árvores.

E, quando você menos espera, lá vai você para a livraria mais próxima comprar o seu.

Claro, todo mundo tem, só falam nisso, também preciso ter um!

E ao chegar lá, surpresa… está esgotado!

Volto para casa frustrada, e fico dias ansiosa esperando a moça da livraria ligar contando que ELE chegou!

Afinal ele é anti estres, então preciso dele!

E acabo comprando e com ele, uma caixa de lápis de cor, 24 cores porque quero deixá-lo lindo!

livro 2

Então, à noite, banho tomado, sento na mesa, escolho uma página e começo a colorir.

E não quero parar!!!

Vale dizer que a TV está desligada e ouço rádio! Isso mesmo, há quanto tempo! Ouro Verde! Sensacional! Músicas que nem me lembrava mais e eu colorindo, combinando cores, pensamento voando…

Sabe quando eu fazia isso? Nunca!

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É claro que tem páginas que a gente acaba desanimando só de ver: coisinhas minúsculas que acho que vou demorar muito ainda para tentar.

E até num jantar com meus irmãos, a conversa girou sobre isso e  uma de minhas irmãs também já estava embarcando nessa: mostrou os 4 livros que tinha acabado de comprar!

Até no face book encontrei montes de fotos de pinturas de pessoas que eu jamais imaginei que pudessem gostar disso!

livro de colorir 005

No meu livro tem até algumas distrações como, procurar os bichos escondidos nos desenhos. Bom para desenvolver a observação!

Pois é, e o que essa moda me proporcionou?

Paz, muita tranquilidade e a certeza que um modismo pode sim trazer coisas boas.

Essas foram algumas delas!

livro 3

“O SENHOR É A MINHA LUZ E A MINHA SALVAÇÃO; A QUEM TEMEREI?”- Salmos 27-1

 

O EXAME DE FEZES

Esse foi o primeiro texto que escrevi e que tive a coragem de mostrar para minha amiga Luciane Prendin, professora de Português e colega de trabalho.

Ela leu com atenção e disse:

– Esse texto é formidável! Você devia começar a escrever crônicas!

E aí foi o empurrão para eu começar a escrevê-las, surgindo aí o livro “Confidências ao Meio Dia”.

Pensei em não colocar essa pelo assunto em questão (kkkkkkk), mas afinal como sendo a primeira, tem o seu valor.

Vamos a ela!

laboratório

Olhei para aquela solicitação de exames e li: “exame de fezes ocultas”.

Puxa vida, pensei, o que vem a ser isso?

Fui até o laboratório buscar, além do recipiente, informações a respeito.

Simples: você vai colher a amostra e trazê-la bem fresca dentro desse vidro.

Difícil: eu nunca tinha feito isso!

Lembrei de quando criança, meu pai desinfetando um urinol (pinico mesmo para quem não sabe) e depois cortando um pedacinho do dito cujo e colocando com cuidado dentro de uma latinha de vaselina (também não sabe o que é, não é mesmo?) sob meu olhar curioso.

Aí pirei: primeiro, não tinha urinol (que palavrinha mais sem graça!), tinha um nojo danado só de pensar em cortar aquilo e, por último, teria que levar numa data certa, num sábado cedo porque durante a semana não poderia chegar atrasada ao trabalho.

Quer dizer, teria um dia e hora marcados para fazer meu intestino (que não conhece nada de horários) funcionar.

Então comecei a pensar no assunto e, de tanto pensar, sonhava à noite com a complicação toda, fezes voando para todos os lados e, acordava suando.

malhar

Para acabar logo com aquilo, marquei comigo mesma que teria de ser no próximo final de semana.

Quanto antes, melhor!

E o dia foi chegando e eu só pensando naquilo: conversava, trabalhava, via TV e…lá estava o papel me olhando, como a dizer “quero só ver como você vai fazer!”.

Chegou a véspera do sábado e deixei tudo preparado: passei álcool numa bandeja plástica que felizmente não tinha sido jogada fora, onde eu iria depositar o referido, uma faca de plástico e um par de luvas que usava para pintar o cabelo.

Como era sábado, levantei mais tarde, depois de uma noite agitada em que me via em cena no banheiro.

Tentei mandar uma mensagem ao meu intestino de: “alôôôô, não tô nem aí”, bem indiferente, mas meu inconsciente gritava: “preciso fazer cocô”!

Lá pelas tantas vi que ia conseguir e corri.

Posição de cócoras e lá vai… quase errei a mira!

Então calcei as luvas, peguei a faquinha e cortei, ainda no capricho, pensando que o melhor seria pegar um pedaço de dentro (o começo é mais velho, o final é recente e o meio, bem… é sempre o meio termo).

Nem sei como ainda raciocinava sobre isso com o meu estômago dando cambalhotas!

Com muito jeito, coloquei dentro do pote e tampei.

Suava!

Que situação mais esdrúxula!

Peguei os utensílios usados, embrulhei em um saco e coloquei no lixo antes de tomar um banho daqueles de meia hora em baixo do chuveiro como para tirar qualquer vestígio do acontecido.

banho

E lá fui eu para o laboratório entregar meu troféu.

Tirei o pacotinho da bolsa e, sem graça, deixei-o com a atendente que nem ligou, nem calculou o trabalho que tive, o tormento pelo qual passei.

Depois desse, encaro qualquer exame… já passei nesse!

Imagens: 1) labanalisesesmoriz.pt; 2) gordinhaeununcamais.blogspot.com; 3) cassianasalvador.wordpress.com

 

 

RESSONÂNCIA

A crônica de hoje foi escrita há dez anos atrás quando fiz esse exame pela primeira vez. 

Como repeti agora há poucos dias, achei oportuno mostrá-la.

Então… vamos lá!

RESSONÂNCIA

Bem que se diz que a velhice nos traz experiência!

É verdade!

Eu nunca precisei saber o que era ressonância magnética até sentir minha primeira dor nos joelhos e, depois de ir ao médico, fazer a seu pedido esse exame.

joelhos

A clínica, bonita por fora, dentro mais parecia um hospital: corredores com portas de vai e vem, avisos disso e daquilo, cheiro de remédio no ar, pessoas andando com camisolões e soro nas veias, enfermeiras ziguezagueando por ali.

Fui encaminhada ao vestiário e também precisei usar aquela “linda” roupa esterilizada.

Comecei a fazer parte do ambiente assim que terminei de retirar brincos, relógio, anel, corrente e fivela de cabelo e então me sentei num cantinho da sala de espera.

Percebi um corre- corre diferente e vieram me informar que a máquina acabara de estragar… cancelaram todos os exames.

Também em pleno domingo à tarde, até a máquina se viu no direito de descansar.

Claro que fiquei chateada porque além de ter perdido minha tarde de folga, teria que agendar um novo dia.

Mas… lá estou eu novamente, num final de tarde, depois de um dia cansativo de trabalho.

Respondo de novo todas as perguntas e o ritual se inicia.

Entro na sala.

máquina

A tão falada máquina é realmente assustadora!

Enorme!

Fui deitada, colocaram meu joelho em evidência, ajustaram fones em meus ouvidos recomendando que não me assustasse com o barulho, que não me mexesse, deram-me uma campainha para o caso de me sentindo mal, apertá-la e…saíram.

Então começou o exame.

O barulho é  muito alto e os sons vão mudando.

Eu tensa, imóvel.

Só meus olhos viravam de um lado para outro e meu pensamento, ah! esse sim, dava voltas e mais voltas.

Comecei a contar os quadrados do forro.

Aí parei o olhar em um respiradouro de ar com doze saliências em metal, como uma grade, e pareceu-me ver o Tom Cruise descendo por ela como no filme Missão Impossível.

E aquele monstro, codinome máquina, tremia, esbravejava, sacudia, urrava, querendo e conseguindo me apavorar.

Pelo tanto de sinais que emitia, meu joelho estava sendo devassado, esmiuçado, dissecado, pobrezinho!

Aí, de repente o silêncio!

Voltam os enfermeiros, colocam o outro joelho (ainda bem que não sou uma centopeia, nem sei se centopeia tem joelhos) para ser examinado e começa tudo de novo.

Mas aí já estou até me acostumando e o tempo passa mais rápido.

Silêncio!

Os atendentes voltam solícitos:

– Tudo bem com a senhora? Está sentindo alguma coisa?

E eu respondo sorrindo que tudo está bem, agora.

Afinal acumulei mais uma experiência em meu currículo…

Saí apressada para me vestir, pegar um táxi e correr para casa a tempo de assistir o penúltimo capítulo da novela das sete.

tv

Do meu livro Confidências ao Meio Dia

Imagens: 1) kilorias.band.uol.com.br; 2) http://www.forebrain.com.br; 3) newvagaboard.blogspot.com

A MENINA ESCOLHIDA

Quando dei por mim, eu tinha pai, mãe, um irmão e uma babá.

Ela tinha a pele bem escura, um colo macio, era alegre, cozinhava como ninguém e engomava minhas anáguas que eu vestia aos domingos para ir à Igreja.

– Tem que ficar bem armada, Pedrina! Bem duras que parem de pé! Eu falava na minha impaciência de criança.

E ela engomava novamente, passava, me vestia e penteava meus cabelos crespos, sempre ouvindo meus choramingos.

Aí sentávamos para conversar: lareira acesa, pinhão estourando na brasa, vento gelado passando pelas frestas da porta, lá em Castro onde morávamos.

Castro

E sempre acabávamos pedindo para mamãe contar a “história da Pedrina”.

– “Eu e seu pai”, começava ela, “fomos morar, logo que casamos, em Machado, lá onde você, Silvinha, nasceu. Mas isso foi bem antes de você vir ao mundo. Como seu pai era pastor, visitávamos sempre as famílias da Igreja. Íamos a sítios, casas bem longe do centro e foi numa dessas vezes que chegamos em uma casinha bem pobre, de tábuas, chão de terra batida, apenas um cômodo onde morava a família da Pedrina: pai, mãe e sete filhos. Começamos a conversar, ensinar sobre higiene, cuidado com as crianças, quando vi, espiando pela porta aberta, uma carinha risonha. Colocava a cabeça, olhava, sorria e escondia de novo. Foi quando o pai dela contou-nos que não tinha condições de sustentar sua família, que estavam doentes e que, portanto, iam dar seus filhos. Se quiserem, ele falou, podem escolher qualquer um e levar. Eu então apontei para a porta e disse que era aquela menininha que eu iria levar. E assim, trouxemos a Pedrina para nossa casa. Como ela tinha piolhos, tivemos que raspar sua cabeça após o banho com bucha e sabão. Tiramos os bernes e colocamos creolina. Encontramos carrapatos e tiramos enquanto ela chorava… e nós também. Era magrinha de dar dó, mas fomos tratando com carinho e assim ela se curou e entrou para nossa família”.

Muitas vezes ouvimos essa narrativa e cada vez nos empolgávamos com a parte dos bichos e cada vez os olhos de Pedrina se enchiam de lágrimas de reconhecimento.

Como ela nos amava!

Viveu sempre ao nosso lado até se casar com um cabo do exército que servia com meu irmão.

Não podia ter filhos, mas queria tanto!

Até que um dia conseguiu engravidar e mamãe cuidou dela com infinita paciência, porque sua pressão subia pondo em risco sua vida e do bebê, que veio ao mundo recebendo o nome de Yedda em homenagem à minha mãe.

Mae negra (1)

Viveu pouco, depois disso.

Fiquei com aquela impressão triste de que se foi cedo demais…

Agora só restam lembranças e saudades!

(Do meu livro Confidências ao Meio Dia)

Imagens: 1) http://www.castro.pr.gov.br; 2) simplismentevida.blogspot.com

O BRINCO QUE NÃO FOI PERDIDO

Era uma moça divorciada, já meio passadinha, mas que se achava a maioral!

Ela era realmente bonita ainda, estava com tudo em cima, mas nem tanto para ficar com essa bola toda.

Estava namorando um “bom partido” e devia dar graças a Deus e sossegar o facho, mas ela simplesmente não conseguia agir assim.

Era maior que ela a vontade de aparecer, ser admirada, valorizada…

Alguém já tinha até comparado esse seu jeito com um sabiá preso na gaiola, olhando para todos os lados com medo de perder alguma coisa.

PassarinhoGaiola

Assim foi que em uma bela noite, saíram os dois para um barzinho da moda.

Lugar agradável, música ambiente, comida gostosa, gente bonita.

Conversa vai, conversa vem e eis que nossa heroína já está desinteressada do seu companheiro, mal ouvindo o que ele fala e, portanto, observando as mesas ao lado.

Seus olhos batem certeiros nos de um homem lindo, maravilhoso, SOZINHO!

– Que falta de sorte! Pensa ela. Justo hoje que vim acompanhada me aparece esse deus grego! 

E tem início a mais descarada paquera!

O coitado do seu namorado nem se dá conta de tamanha canalhice!

Então ela pensa: – vou dar um jeito de ir para casa e volto depois no meu carro!

Foi o que fez.

Simulou aquela dor de cabeça e ele prontamente levou-a para casa.

Entrou por uma porta e saiu por outra.

Pegou seu carro e lá se foi maquinando como faria.

Tirou um brinco de ouro de uma orelha, guardou na bolsa e chegando à porta do bar, perguntou ao segurança se poderia entrar.

– Perdi meu brinco de ouro! Falou fazendo beicinho. Poderia entrar para procurá-lo? Tenho certeza que deixei cair perto da mesa onde estava.

Gentilmente o rapaz abriu a porta e acompanhou-a até a mesa.

Ela foi entrando e seu olhar rapidamente foi até a mesa onde DEVERIA estar o bonitão.

Não estava mais lá!

O homem tinha ido embora!

– Não acredito! Falou entre dentes.

E foi fazer seu papel: procurou o brinco em baixo da mesa, em volta, pediu desculpas, fez cara de triste e saiu.

– Console-se com o que tem! Repetiu para si mesma. Mas que a Globo perdeu uma atriz, isso com certeza!

Abriu a bolsa, pegou o brinco, colocou na orelha e lá se foi sorrindo…

mulher dirigindo

Imagens: 1) carinhoecasa.blogspot.com; 2) escrevalolaescreva.blogspot.com

E ATENÇÃO: NO PRÓXIMO POST, DIA 01 DE DEZEMBRO, COMEÇAM AS RECEITAS E REFLEXÕES NATALINAS, DURANTE TODO O MÊS!!!

O PALITO

Na crise de falta de homem em que o mundo anda, aquelas amigas resolveram sair numa bela noite.

– Vamos para a balada! Disse uma delas.

– Quem sabe não é hoje que vamos encontrar nosso “príncipe encantado”? Falou a outra.

– Estou tendo ótimos presságios! Afirmou a terceira.

E lá foram, animadas, para aquela casa noturna, dançar.

baile

Como o dinheiro estava curto e já tinham que pagar ingresso, dividir estacionamento (quanta roubalheira!), elas pediram um refrigerante que teria que fazer o favor de durar até o final da noite.

Jantar, nem pensar!

Primeiro porque iria a grana da semana e segundo porque ficaria com hálito de comida e como dançar juntinho cheirando molhos e temperos?

Então começa a investigação propriamente dita.

– Tá vendo aquele ali? Mostra uma delas. O cara é velho e arruma uma mocinha que podia ser sua neta!

– E aquela mulher lá? Aponta a outra. Com aquele homem horrível!

– Pelo menos ela tem namorado… fala a última fazendo beicinho.

E a casa vai lotando e elas a olhar para todos os lados.

– Parece que não existem mais homens sozinhos! Observa uma delas. Todos já tem donas…

– Isso sem falar na enxurrada de mulheres que está entrando! Olhem só a porta!

– Nem quero ver!

Nisso, atraídas como por um imã, aqueles três pares de olhos críticos, caem numa mesma mesa.

Elas olham, se entreolham e tornam a observar atentamente.

O homem recém chegado sozinho, num terno m a r a v i l h o s o, senta-se enquanto o garçom , mais do que solícito, lhe entrega o cardápio.

Ele abre, lê, chama educadamente o garçom e faz o seu pedido.

E as três ali, boquiabertas, sem perder nadica de nada.

– Que homem chique!

– Bonitão!

– Tão educado!

O engraçado seria se ele viesse até elas e convidasse uma para dançar!

As outras iriam ficar arrasadas enquanto a escolhida ganharia a noite!

Isso é o que passava pela cabeça das três enquanto não tiravam os olhos de cada movimento daquele pobre ser escolhido.

E lá vem o jantar e ele, como se estivesse sozinho no mundo, vai degustando vagarosamente cada garfada.

– Mas ele realmente é perfeito! Diz a mais velha.

– Um gato! Diz a outra.

– Nossa, gente, será que ele é de verdade mesmo? Pergunta a terceira.

E, terminado o jantar, o garçom volta para retirar os pratos e aquele homem se recosta no espaldar da cadeira, aí sim observando à sua volta.

Parece que, finalmente, ele vai se preparar para escolher alguém para dançar.

As amigas nem piscam!

É quando nosso herói pega um palito (isso mesmo, Danuza, um PALITO!)  e começa a fazer a limpeza com sua boca aberta.

De bocas abertas, além dos olhos, é que ficaram nossas amigas!

Viraram para o outro lado e o encanto acabou…

Tudo!

Menos palito!

Nem pensar!

palito

 Imagens: 1. significado.sonhos.nom.br; 2. historiasdelari.blogspot.com