Estávamos, há muitos anos atrás, em uma pequena cidade de Minas onde o trilho do trem cortava toda a cidade.
Ele vinha apitando forte nas curvas, menos na Sexta Feira Santa quando não se podia falar alto, nem assobiar, muito menos ligar o rádio em casa.
Assobiar o vovô não deixava mesmo!
– Mulher distinta, não assobia!
E eu que estava longe de ser mulher e nem sabia o que era distinta, apenas obedecia sem graça.
E lá ia o tempo passando, devagar, porque tudo ali era sem pressa.
Foi quando mamãe resolveu brincar “de mentirinha” comigo.
– Sabe, querida, que às vezes eu viro lobo?
– Como assim? Perguntei.
– Eu vou andando pelos trilhos até aquela curva e quando volto, sou um lobo.
Fiquei pensando, pensando e resolvi que queria ver.
– Quero ver, mãe, se isso é verdade!
– Pois então veja, mas não vale chorar!
E lá fiquei eu, na beira do trilho enquanto ela desaparecia na curva.
Nem lembro bem o que se passou na minha mente àquela hora: medo, angústia, dúvida…talvez!
E ela voltou.
Era um lobo, andando sobre duas pernas, com as roupas de minha mãe mas a cara de um lobo.
Horrorizada, corri até ele abraçando sua cintura e gritando:
– Não, mamãe! Não quero você lobo! Por favor! Vire minha mãe outra vez!
E mamãe me abraçava sorrindo dizendo:
– Mas sou eu, filhinha, sua mãe!
E eu com os olhos fechados, respondia:
– Não! É o lobo! Volte, mamãe!
E assim ficamos abraçadas, durante muito tempo!
Muitos e muitos anos depois, quando nos reunimos para conversar, sou alvo das risadas de todos e ainda juro que vi minha mãe virar lobo.
E ela quando perguntada, sorri enigmaticamente e sacode a cabeça como quem diz:
– Quem sabe?
(Do meu livro Confidências ao Meio Dia, com um segundo título: O PODER DA SUGESTÃO)
Imagens: 1) http://www.popscreen.com; 2) galeria.colorir.com


Lembrei da cena sobre sua neta, que queria ouvir a história do chapeuzinho vermelho, desde que vc não imitasse a voz do lobo!
kkkkk!!! Isso mesmo!!! Um beijão, amiga!