IRRITAÇÃO

Há alguns anos atrás, minha mãe nos contou um fato que resultou em enormes gargalhadas de todos que ouviam.

– Eu entrei no ônibus (disse ela) com sacolas e pacotes depois de ter andado muito, e todos os lugares estavam ocupados, inclusive aqueles com os dizeres de preferenciais.

assento-preferencial

Parei me equilibrando perto de um deles onde estava sentada uma mocinha que olhou e perguntou se queria que ela levasse meus pacotes.

Respondi agradecendo e completei que eles não estavam cansados, mas eu sim!

Ela se levantou sem graça e me deu o lugar.

– Nossa, mãe, você teve coragem de falar assim? Perguntei.

– Claro! Eu sou uma idosa e estava cheia de razão! Mamãe respondeu.

Hoje em dia sou eu a idosa e tenho percebido o quanto é irritante presenciar a falta de educação das pessoas.

Moro em uma cidade considerada de primeiro mundo onde existe um sistema de transporte com ônibus que são como um metrô de superfície e que param em estações tubo.

curitiba

Primeiro as pessoas que estão dentro, descem para depois as outras que estão esperando, possam subir.

Esse sistema é até bem explicado em gravações que ouvimos durante o trajeto, mas não é assim que acontece.

A porta se abre e as pessoas mal conseguem sair porque outras já estão atropelando na ânsia de chegar primeiro.

E não é por medo de perder o ônibus não, porque ele até faz uma parada demorada.

É por falta de educação mesmo!

E eu fico ali, do lado de fora, parada como um alien, vendo o alvoroço.

Depois de todos saírem, de outros passarem por mim entrando, entro também e com um mau humor terrível!

Não posso fazer como eles, é claro, mas sempre acabo indo em pé porque outros passaram na minha frente.

dentro do ônibus

Outra coisa que me irrita é ver pessoas jogando papel ou outra coisa qualquer, no chão.

Tenho vontade de ir atrás, fazê-los juntar e jogar no cesto que está a poucos passos dali e ainda dar um sermão!

Isso é ser intolerante?

Implicante?

Coisa de velha?

Tenho certeza que não porque sei observar a boa educação, a gentileza, a solidariedade.

Como seria bom conviver com pessoas educadas, numa cidade realmente civilizada!

Por falar nisso, DESCULPEM o desabafo, POR FAVOR não me julguem tão severamente e OBRIGADA pela paciência!

Imagens: 1) turismoadaptado.wordpress.com; 2) foto de Luciano Roncolato; 3) sushicomkibe.com

O TIRO

Acordei com o tiro!

Ainda meio dormindo, ouvi os gritos:

– PARE! É A POLÍCIA! DEITA! DEITA, SEU FILHO DA MÃE!

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Despertei de pronto, olhei para o relógio que mostrava as horas em vermelho sangue:05:00 horas da manhã.

O barulho todo vinha da frente da janela do meu quarto que dava para a entrada do prédio.

Meus sentidos ficaram alertas e, completamente acordada, comecei a tremer.

Podia ouvir os chutes que davam e os gritos de dor na madrugada antes silenciosa.

Era a primeira vez que ouvia um tiro de verdade; apenas um, mas que me deixou pensativa até o dia clarear…

Queria orar e não conseguia.

Não sabia se devia pedir pelo bandido que apanhava ou se pela polícia que batia.

Talvez aquele homem matara alguém ou invadira a casa de pessoas inocentes para roubar ou sequestrar… ou podia ser até um inocente que passava por ali e estava sendo confundido com um suspeito… e os policiais, então?

Podiam estar abusando da autoridade fazendo de um pobre transeunte, um prisioneiro.

Ou não!

Tanta violência!

Uma coisa é assistir, acomodada em um sofá na segurança da sua casa, um filme com saraivas de balas distribuídas em corpos que caem em poças de sangue e outra é ser acordada como fui.

homem caído

Nem cheguei à janela para ver a cena… e o medo de balas perdidas?

E além do mais, foi tudo muito rápido: ouvi o som de um carro saindo apressado e depois o silêncio lá fora e as batidas do meu coração dentro do peito.

Passou muito tempo até eu conseguir dormir novamente.

A manhã serena de domingo me recebeu como sempre: o sol brilhando sobre as folhas das árvores ainda cobertas de orvalho.

Lembrei do tiro e das vozes.

Lembrei que a violência é real.

Fui à Igreja e orei.

Já sabia por quem pedir: por todos nós, criaturas humanas que somente pela misericórdia de Deus, podemos alcançar a paz!

Imagens: 1) dicastrocandoideias.blogspot.com; 2) http://www.rioverdeagora.com.br

19 DIAS SEM RUBEM ALVES

Nunca vai ser demais ler e escrever sobre Rubem Alves.

Ele nasceu em plena primavera de 1933.

Talvez por isso seu amor pelas árvores, principalmente os ipês amarelos onde em carta lida depois de sua morte, ele pede para serem jogadas suas cinzas.

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“Um livro são pedaços de mim espalhados ao vento como sementes, para irem nascer onde o vento as levar”.

Rubem Alves era uma das referências do país em temas relacionados à educação.

Além de educador e escritor, atuou como cronista, pedagogo, poeta, filósofo, contador de histórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros infantis e até psicanalista, de acordo com sua página oficial na internet.

“Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma”.

Um dia, encontrei Rubem Alves e começamos a conversar “mineiramente”, que é falando de saudades.

“A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.

Da nossa Minas Gerais e, continuando sobre os pães de queijo e bolinhos de chuva.

Contei a ele que em nossa casa, chamávamos de “bolinho de virar” e contei o porquê: ele vira sozinho quando está fritando na panela…

Ele gostou muito dessa história, mas o melhor mesmo foi que dei a ele, com dedicatória, o meu livro de poesias “Um Pouco de Mim”.

Ele olhou, folheou, agradeceu e colocou em sua pasta de mão dizendo:

– Vou ler no avião!

Gente, fiquei muito feliz!

Imaginei aquela figura tão importante, lendo o MEU livro no avião… não é para qualquer um!

Tudo o que ele escrevia era tão simples de entender e de uma profundidade tão grande!

Cada vez que terminava de ler algum texto dele me sentia tão plena, tão em consonância com suas palavras que me parecia ter eu escrito aquilo…

“Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que nos dá prazer é degustado vagarosamente.”

Sem saber disso, o nome que escolhi para o meu blog é justamente uma mistura de cultura e culinária… acho que ele ficaria orgulhoso de mim!

flor do ipê

“Sei que não resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui… escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês amarelos…”

“Deus existe para tranquilizar a saudade”.

Imagens: sedimentosdateca.blogspot.com

MEU PEDACINHO DE CHÃO

“Era uma vez um lugar chamado Vila de Santa Fé”.

Assim começou essa novela tão encantadora, cheia de pessoas simples, mostrando que existe vida, além de matanças, ciúmes e maus exemplos que cansamos de assistir a todo instante!

Quem não gostaria de morar nesse lugar encantado?

galo meu pedacinho...

Onde a neve cai de repente deixando tudo branquinho, onde a primavera enche de flores os caminhos, onde a locomotiva vem apitando pelas campinas, onde as crianças brincam sossegadamente, onde as mulheres se vestem com longos vestidos e onde existe a delicadeza de movimentos e música pairando no ar?

E esse faz de conta vai chegando ao fim…

Uma novela com um elenco tão enxuto, mas cheia de grandes nomes!

O que é o pequeno (no tamanho) Osmar Prado e que se tornou um gigante na pele do temível e adorável Coronel Epa?

O que é o formidável Antonio Fagundes que adota um andar puladinho, vestido de dono de bar como um Giácomo tão feio?

E o galã de outras novelas, Rodrigo Lombardi, que como Raj despertava suspiros e aparece agora como um barbudo analfabeto de nome Pedro Falcão?

Os verdadeiros atores são assim mesmo: nos encantam com suas atuações em qualquer papel que se nos apresente… grandes nomes que se dispuseram a deixar seus rótulos de galãs para enfeiarem em sua aparência, mas sem deixar de ser menos maravilhosos!

E ele se mostra apaixonado por sua esposa, a dona Tê (Inês Peixoto) que com seu acordeom deu vida à sua casa e chamando-o de “pai” se mostrou de uma versatilidade tão grande… sem dizer que eu nem conhecia essa atriz!

E aí vem a lindíssima Juliana Paes no papel da irriquieta Catarina que conquistava todos com sua risada aberta, escancarada, cheia de charme.

A “perfessora” Juliana (Bruna Linzmaier) com seus cabelos cor de rosa e que desperta a paixão no fabuloso Zelão (Irandir Santos).

Esse Zelão, sem saber, caiu nas graças de milhares de mulheres que o viram como um homem viril, sedutor e de uma sensibilidade tamanha!

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E o jovem Ferdinando (Johnny Massaro) que acaba conquistando o coração da indomável Gina (Paula Barbosa) e vivendo uma linda história de amor?

E por aí vem: Padre Santo, o tão querido Emiliano Queiroz; Rodapé (Flávio Bauraqui) com seu jeito esquisito, cantando enquanto tira o leite da vaca; Amância (Dani Ornellas), uma empregada metida e tão amada; Mãe Benta (Teuda Bara) tão especial no seu papel de benzedeira; o Prefeito das Antas (Ricardo Blat) que ficou praticamente irreconhecível nesse papel; Marimbondo (Fernando Sampaio), Izidoro (Raul Barretto), Rosinha (Letícia Almeida) um rosto lindo que acaba conquistando o solitário italiano Giácomo; Doutor Renato (Bruno Fagundes) em sua primeira novela; Tuim (Kauê Ribeiro de Souza) o amigo querido das duas crianças e mais um casal lindo: Milita (Cintia Dicker) com suas sardas e tranças e Viramundo (Gabriel Sater), romântico e com uma voz suave e gostosa de ouvir…

E tem o Galo Bené, testemunha dos grandes acontecimentos da Vila.

E, por último, as duas crianças que, para mim, foram a grande revelação da novela: Pituquinha (Geytsa Garcia) e Serelepe (Tomás Sampaio).

O que eram essas crianças lendo, ou melhor, devorando os livros de Monteiro Lobato?

E a vontade de aprender que as pessoas tinham e a atual crítica sobre a política brasileira, tudo de uma maneira sutil e verdadeira?

Esse vídeo abaixo vai levar vocês a uma viagem musical com todos os personagens dessa novela.

Não deixem de assistir: é emocionante “por demais” e a música Chuá Chuá é um clássico sertanejo lindo!

CHUÁ CHUÁ

Benedito Ruy Barbosa é o autor dessa novela encantadora que já está deixando saudades…

Que venham mais “pedacinhos de chão” para nos encantar e sonhar com novos “Zelões” e que nos levem a voar sobre jardins floridos…

Imagem 1: redeglobo.globo.com; imagem 2: blogs.odiario.com

TRÊS MULHERES ESPECIAIS

Trabalho há anos numa grande empresa e é interessante observar a diferença que existe entre as pessoas.

E nem sou psicóloga…

Primeiro passei a notar a Halina que é uma moça bem jovem e bonita.

Num meio em que, muitas vezes, as pessoas nem se conhecem e mal se cumprimentam, ela oferece o seu “bom dia” mavioso.

Isso mesmo: mavioso, de suave, terno, afável.

Quase vejo notas musicais saindo desse seu bom dia que ela oferece a todos, indistintamente.

– BOM DIA!

notas musicais

A segunda e não menos importante, é a Ana Carla.

Estávamos passando por um período de grande estiagem.

A grama, flores e arvorezinhas do nosso jardim estavam secas e tristonhas.

Aí, uma manhã, dois empregados da manutenção, chegaram com sua máquina Vap de lavar calçadas e começaram a esfregar o pátio demoradamente.

Algumas horas depois ela chega transtornada pedindo que parassem com aquilo, que era muita água sendo desperdiçada.

– São ordens! Responderam eles, continuando.

Ela então vai até a administração e conta o problema.

Mais tarde, ela que sempre se mostrou calma, contou-me que não tinha sido atendida, mas que tinha deixado registrado o seu protesto.

– Não adiantou nada! Disse ela tristemente.

lavadora VAP

Engano seu, minha amiga, são exemplos como o seu que nos fazem parar e pensar!

E a terceira é a Solange.

Nem trabalha mais conosco, mas talvez se soubessem de suas atitudes teria sido mais valorizada.

Nós usamos copos descartáveis para tomar água.

Como eles são muito frágeis, muitas vezes pegamos dois copos para ficar mais firme.

Um belo dia, ela chegou com um presente para todos do setor: um porta copos de plástico duro, perfeito para ser colocado o outro dentro.

– Assim não será preciso usar dois. Um só basta! Ela falou.

Em outra ocasião, na cozinha que fica ao lado, várias canecas e chaleiras ferviam água para o café.

A zeladora que o preparava não estava por ali.

Muitos tinham passado sem fazer nada.

Ela entrou, desligou a chama do gás para não ficar fervendo à toa.

Ninguém viu… só eu, mas foi um exemplo maravilhoso de alguém que, sem se mostrar, fez a sua parte.

chaleira

E eu fiquei pensando com meus botões: ainda bem que existem pessoas como essas mulheres que oferecem sorrisos, que se importam com o meio ambiente, que sabem a importância do poupar!

Nem tudo está perdido!

No final do túnel, existe luz!

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Imagens: 1) pensando.dihitt.com; 2) http://www.americanas.com.br; 3) http://www.robsonpiresxerife.com; 4) andretaka.wordpress.com

 

DIA DOS NAMORADOS/ PRIMEIRO JOGO DO BRASIL

UAU!!!

As duas comemorações juntas?

Como vai ser?

coração verde e amarelo

Muito se tem escrito sobre o Dia dos Namorados e a estreia do Brasil na Copa e muito tenho lido sobre isso.

Sobre o primeiro, confesso que já nem comemoro mais… meus tempos de namoro já estão bem longe.

Sobre o segundo, sim: gosto de futebol!

Torço e sofro pelo meu time.

Assisto às partidas na TV e, quando não passa, ouço pelo rádio.

Agora, a Copa do Mundo é ainda mais emocionante!

Todos torcemos juntos pelo nosso país.

Penso e fico triste ao lembrar do desperdício de dinheiro, o uso desmedido dele e o quanto poderia ter sido feito em prol de uma vida mais digna para milhares de brasileiros que, esquecidos da dor, do sofrimento e da vergonha, vão pular, torcer e gritar hoje, na hora em que o jogo começar e, como eu, vestir o verde e amarelo.

E passo a observar o casal de namorados que se prepara para assistir o jogo na sala onde estou.

Os dois com a camisa da seleção.

Ele, ansioso, mal olha para ela, parece estar concentrado, contendo a respiração.

Ela, a olhar para ele, pegando em sua mão, esperando palavras ou gestos de carinho nesse dia que é dos dois.

– Será que ele se lembra? Será que comprou alguma coisa para mim?

E começa o jogo e as vozes de um Brasil inteiro cantam unidas ao bater de um só coração… bem próprio para hoje!

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E termina o espetáculo!

E é quando ele se lembra de olhar ao lado e tira da mochila um presente para ela.

Ela sorri feliz e rasga o papel, curiosa, retirando algo de dentro.

Chego mais perto ao ver a decepção estampada no rosto dela!

– Completo! Ele diz com ares de vitória!

Em suas mãos o presente: um álbum de figurinhas da Copa…

Imagens: 1) seuperfilmega.blogspot.com; 2) portalcapacitar.com.br

O SORRISO DO GATO DA ALICE

Passei minha infância lendo muitos livros de histórias e, uma das que mais gostava, era a de Alice no País das Maravilhas.

Depois de ler e reler muitas vezes ganhei o disco, pequeno, colorido, 78 rotações que ouvia em minha vitrola de 6 pilhas gigantes que acho nem existir mais.

Colocava do lado 1 e depois virava para ouvir o lado 2.

Depois de adulta quando vi pela primeira vez um CD, pedi para ouvir o outro lado… minha filha riu muito de mim!

Voltando a Alice, era encantadora as peripécias daquela menina loira, vestido azul rodado e que perseguia o Coelho Branco, conversava com as Lagartas, brigava com a Rainha de Copas, aumentava e diminuía de tamanho.

alice

Sabia a história inteira de cor e cantava todas as músicas dela.

Agora o que eu mais gostava mesmo, era do Gato!

gato

Ele tinha uma voz vagarosa, quase arrastada e, do alto da árvore, conversava com Alice.

Aos poucos ele ia sumindo, às vezes ficava visível só sua cabeça, outras vezes só o seu longo rabo, mas quase sempre ficava somente seu sorriso.

Só o sorriso, sem corpo, naquele fundo escuro!

Quando tive meus filhos, contei e recontei a mesma história.

Dei a eles o livro, bem mais colorido e ilustrado e o disco, que já era um long play, e a história encantou a eles também.

Fizemos então uma associação das imagens do sorriso do Gato com a lua no céu em sua fase minguante… céu escuro e aquela lua lá em cima sorrindo…

lua

– Mamãe, olha lá no céu o sorriso do Gato da Alice!

Para quem está de bem com a vida, olhar para o céu e ver um sorriso… não tem preço!

Imagens: 1) http://www.planetadisney.com.br; 2) variedadesnotaveis.blogspot.com; 3) aversatil.wordpress.com

PARECENÇAS

Que somos todos pedacinhos de nossos antepassados, isso já sabemos.

Mas o que eu não tinha consciência é de que, quanto mais idosa vou ficando, mais essas semelhanças vão acentuando.

Em minha juventude quando alguém me achava parecida com minha mãe ou meu pai, eu nem gostava muito porque os via como velhos, cabelos brancos, rugas, etc, mas agora que estou como eles eram, nem me acho tão velha assim.

Ah, essas parecenças…

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Começou dias atrás em que eu escrevia um texto e quando olhei para minha letra, jurava que era meu pai quem acabara de escrever!

Aquela caligrafia inconfundível dançava em frente aos meus olhos pasmos!

E o jeito “mineirês” de falar, então: palavras que só meu pai falava e entendia e que eu aprendera há tanto tempo e agora repetia…

Outro dia, vesti um casaco vermelho (minha mãe adorava vermelho) e fiz um gesto para abrir e mostrar à minha filha; ela parou de boca aberta me olhando e disse:

– Mãe, você fez igualzinho a vovó!

Depois, num domingo, fui almoçar com minha irmã.

Eu acabara de cortar o cabelo bem curto e enquanto conversávamos coloquei meus óculos para ler o que ela me mostrava.

– Meus santo, mana! Nunca te achei parecida com a mãe, mas você está igual a ela! Disse com olhos arregalados…

Achei um exagero dela!

Na manhã seguinte ao escovar meus dentes, dei de cara comigo no espelho: não era eu, era minha mãe me olhando espantada!

Sorri para ela que era eu e, nesse momento, tantas coisas vieram à minha mente: um passado gostoso onde pai e mãe eram toda minha estrutura, meu amparo, minha força.

É, os anos passam!

E nem que não queiramos (o que não é o meu caso) lá está em nós um pedacinho dos que foram antes de nós.

E, por certo, lá na frente haverá pedacinhos de mim em outros rostos de pessoinhas do futuro.

É bom saber que não morremos!

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Imagens: 1) nuvemdeestrelas.blogspot.com; 2) wp.clicrbs.com.br

 

A CHEGADA DA GELADEIRA

É inacreditável!

Nesses tempos de hoje em que nesse exato momento uso um computador para escrever, falo com minha filha na África como se ela estivesse aqui na esquina e vejo folhas saindo do fax, começo a lembrar das dificuldades que tínhamos há pouco tempo atrás.

Quando eu tinha meus nove anos (parece que foi ontem), vivia com minha família em uma pequena cidade do interior do Paraná, Sengés.

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Lembro de um rio que atravessava a cidade e passava bem nos fundos de casa; de um cinema que funcionava atrás de um bar com cadeiras que mudávamos de lugar a nosso bel prazer.

Lá assisti filmes ao lado de minha mãe, que adorava cinema.

“A Fonte dos Desejos” e “Marcelino Pão e Vinho” foram alguns.

Lembro da escola onde estudava e “briguei de puxar cabelo” pela primeira e última vez em minha vida, por causa de uma colega que insistia em caçoar da maneira com que eu respondia a chamada: “presentiii”.

Era meu jeito “mineirês” de falar (hoje isso seria chamado de bulling)…

E tinha a nossa casa.

Grande, de esquina, no final de uma descida onde, numa manhã, um caminhão sem freios entrou por dentro dela fazendo enorme estrago!

Ainda bem que não brincávamos na varanda naquele momento!

E foi, num belo dia, que ao olharmos pela janela, vimos uma carroça trazendo da loja a nossa tão sonhada geladeira!

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Papai já nos contara a novidade e esperávamos aflitos esse dia chegar.

Ela foi colocada triunfalmente em nossa sala de jantar!

A cozinha era pouco para ela!

Meu pai a ligou na tomada, mamãe passou um pano com cuidado e colocou as forminhas com água para fazer gelo enquanto nós ficávamos ali olhando e esperando como “galinhas chocas” ele ficar pronto.

Como éramos felizes em nossa simplicidade!

Acabamos ficando todos com dor de garganta pois nunca roemos tanto gelo e tomamos tanta água gelada!

Ontem passei por uma loja de eletrodomésticos e fiquei pasma com a sofisticação e preço das geladeiras modernas!

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Na minha mente veio aquela cena da carroça trazendo aquele hoje “elefante branco” que nos deixou maravilhados.

Por certo, daqui há alguns anos, alguma pequena menina de hoje, vai escrever uma crônica sobre certas geladeiras de sua infância que nem sabiam falar…

(Do meu livro Confidências ao Meio Dia”)

Imagem de Sengés: http://www.rotadostropeiros.com.br

A MÃE QUE VIROU LOBO

Estávamos, há muitos anos atrás, em uma pequena cidade de Minas onde o trilho do trem cortava toda a cidade.

Ele vinha apitando forte nas curvas, menos na Sexta Feira Santa quando não se podia falar alto, nem assobiar, muito menos ligar o rádio em casa.

Assobiar o vovô não deixava mesmo!

– Mulher distinta, não assobia!

E eu que estava longe de ser mulher e nem sabia o que era distinta, apenas obedecia sem graça.

E lá ia o tempo passando, devagar, porque tudo ali era sem pressa.

Foi quando mamãe resolveu brincar “de mentirinha” comigo.

– Sabe, querida, que às vezes eu viro lobo?

– Como assim? Perguntei.

– Eu vou andando pelos trilhos até aquela curva e quando volto, sou um lobo.

Fiquei pensando, pensando e resolvi que queria ver.

– Quero ver, mãe, se isso é verdade!

– Pois então veja, mas não vale chorar!

E lá fiquei eu, na beira do trilho enquanto ela desaparecia na curva.

Nem lembro bem o que se passou na minha mente àquela hora: medo, angústia, dúvida…talvez!

E ela voltou.

lobo mau

Era um lobo, andando sobre duas pernas, com as roupas de minha mãe mas a cara de um lobo.

Horrorizada, corri até ele abraçando sua cintura e gritando:

– Não, mamãe! Não quero você lobo! Por favor! Vire minha mãe outra vez!

E mamãe me abraçava sorrindo dizendo:

– Mas sou eu, filhinha, sua mãe!

E eu com os olhos fechados, respondia:

– Não! É o lobo! Volte, mamãe!

E assim ficamos abraçadas, durante muito tempo!

mãe e filha

Muitos e muitos anos depois, quando nos reunimos para conversar, sou alvo das risadas de todos e ainda juro que vi minha mãe virar lobo.

E ela quando perguntada, sorri enigmaticamente e sacode a cabeça como quem diz:

– Quem sabe?

(Do meu livro Confidências ao Meio Dia, com um segundo título: O PODER DA SUGESTÃO)

Imagens: 1) http://www.popscreen.com; 2) galeria.colorir.com